O Lixão

ONDE VIVER SE CONFUNDE
COM SOBREVIVER.

Conhecido como cenário de documentários, filmes e novelas, o maior aterro sanitário da América Latina segue esquecido. Jardim Gramacho tem nome bonito mas é na verdade o antigo Lixão. No passado recebiam 9.500 toneladas de lixo diariamente e apesar de parecer horrível viver de restos, essa era a felicidade das famílias locais. “Chegava caminhão com resto de frutas e até carne mas agora comer é luxo”, diz uma das mães SIGA. Em 2012 encerraram as atividades do aterro sugerindo erosão do solo e problemas químicos vindos do chorume. Juntamente com a noticia de desemprego os catadores de lixo ouviram promessas. Receberam pequena indenização até serem realocados mas esperam as boas novas há sete anos.

Hoje vivem por lá 28 mil famílias e a miséria não se limita a falta de comida. Sem rede de esgoto, luz elétrica ou água, caminham na terra e lama longas distâncias até chegarem na civilização de Duque de Caxias. “Minha filha estava passando mal e caminhei mais de uma hora com ela no colo até chegar no posto de saúde. Chegando lá não tinham os remédios que ela precisava para infecção alimentar e precisei pegar o dinheiro emprestado com o vizinho para voltar na cidade e comprar”, diz Laís. “Abri meu pé brincando de pique pega porque o muro lá de casa caiu mas agora está doendo muito para caminhar até o colégio”, diz Diego de 6 anos. Esses são apenas alguns dos muitos relatos que escutamos por lá. Recentemente ouvimos a história da Andreia que construiu o próprio banheiro porque sofria vendo os filhos fazendo necessidades em sacolas plásticas, “ainda preciso recolher da mesma forma mas pelo menos vejo meus filhos sentados com dignidade”.

Negligenciadas, as famílias acabaram sendo impostas outro estilo de governo, o trafico. Crianças começam a ser recrutadas por volta de oito anos e mesmo as famílias que não possuem qualquer envolvimento com a facção sofrem com os constantes confrontos. Conversamos recentemente com uma missionaria que muito apegada a certa família voltou para visitá-los e descobriu que o filho de dez anos já estava “trabalhando”. “Agora minha irmã não passa mais fome e eu ajudo em casa tia” foi o que ela escutou ao reencontrá-lo. Reconhecemos o trabalho de todas as ONGs locais que muito fazem e sabemos que se não fosse por elas, muitos estariam mortos de fome. A falta de recursos é evidente mas ajudar é a única opção no coração dos voluntários. O impressionante é que Duque de Caxias é o 3o maior PIB do estado então não faz sentido algum um lugar tão miserável existir por lá. O SIGA chegou para agregar o trabalho que está sendo feito com o intuito final de tira-los de lá.